A travessia requer cuidado. A espera. A dúvida. A imprevisibilidade da Alma.
Deixo aqui os que me restam; tudo que me transborda; a matéria que me reveste; o pensamento de quem sou, do que sou; a voz da minha fala; o som do meu silêncio; as minhas impregnadas ondas de energia; a minha poesia, a minha poiesis*, a minha melodia; a minha natureza - a que cala, e a que transcende; a minha herança, sangue do meu sangue.
Um dia deitei abaixo todas as noções das coisas em que era a realidade, e nascí. Brotei em flor.
Caí duma altura considerável, sem noção do tempo ou espaço. Viagem eterna, senão pela parada estratégica em algum paralelo, que sou. Percorri alguns instantes dos passados que me fizeram carne, tantas vezes; e então A vida !
Percorri todas as vidas em que fui ser vivente, e marquei cada passagem nas palmas das minhas mãos. Vim nascida nesta vida para mais uma aula da Alma. Nascí, vivi, tornei-me, caí, levantei.
De cada tentativa vai se formando a minha lida. De todos os amores, de todos os tormentos, de cada sensação, de cada encontro, dos momentos inexplicáveis, e fugidios.
O ar entra pela minha narina, e aspiro à vida. O ar sai pela minha narina, e expiro à vida.
Liberdade. Escolhas. Desafios. Bem-aventuranças. Caminhos. Passagens.
Meu corpo parece mudar a cada outono. Cresço por dentro, fico duma altura insuperável. Também parece não caber em mim. Vou revestindo meu corpo etéreo com as mesmas linhas que traçaram tantas vezes meu destino. E perecível sou, diante do inesgotável tempo do Mundo.
Viver tem dessas coisas, de perecer, de findar-se, morrer .
Então cerro os meus olhos. Deito-me abaixo do meu corpo. Descanso o pulsar do coração que me dá 'anima'. E enquanto durmo, aproveito para morrer, bem devagarinho, silenciosamente. Me despeço do Sol que nasce, na manhã seguinte, com uma canção eterna, já lenda da Vida; olho a lua no Céu, e ela me fita com a graça de quem já não respira o ar, porque sua realidade é outra. Cada barulho vai me despedindo com a mesma canção. A que toca incessantemente em mim, quando fecho os meus ouvidos para este mundo.
Faz frio. E é longe o lugar pra onde vou. Aperto minhas mãos contra o peito. Lembro-me de esquecer todas as coisas vistas pela minha retina, cansada. Abro os braços. E torno-me a cair, lentamente, em direção ao vazio, ao nada. à Vida.!
Indira
1.Junho.2010
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