{pausa para a vida real .}
Acabo de acordar. Entre um arroubo de desentendimento da matéria vida e os dois celulares tocando suas sinas de despertar. O som de um deles adentra meus sonhos, Cazuza. O outro faz com que eu a acorde, já atrasada, para a batalha do dia que virá. Ela sai correndo contra o tempo; eu estou aqui, fazendo o tempo correr devagar para tudo permanecer intacto na parede da memória. Não me recordo, por mais esforço que faça, para saber como tudo começa, ou se em algum outro momento da noite tive sonho outro que não este. Sei lembrar que era uma festa num pátio muito grande, e mesmo que haja muitas pessoas , o tamanho deste lugar faz com que exista ninchos 'sem gentes'. Vamos percorrendo o lugar Nayra, Marquito e eu. Sempre em trio. Sempre lado-a-lado, passos iguais. Olho-no-olho. De repente um corredor largo, com muitas pessoas em fila e outras que se diferenciam daquelas por seu grau de mediunidade e sapiência. Sinto um vento gelado percorrer meu corpo, e esta sensação é tamanha que minha alma em vida sente como sendo muito real. O vento vai se demorando em meu corpo a ponto de assanhar meus cabelos e me fazer ser notada por algumas poucas pessoas mais 'entendidas' que me fazem entrar numa lista e esperar, também, na fila, que nos levará a alguma descoberta pessoal. Ao adentrar naquele espaço meu corpo é tomado por um frenesi quase macabro de risadas, lágrimas e atos desencontrados de fúria e força. Existem muitas vozes a me dizer em mente que agora estava a dividir aquele corpo, matéria. Minha alma não fraqueja embora ceda lugar a todos eles. O Senhor que me acompanha vai me orientando; entretanto sua voz vai soando tão longíqua. O que agora escuto e reproduzo é um dialeto estranho, e talvez o que seja mais estranho é o fato de eu ter completo domínio sobre ele. Vou rodando uma dança sensual e macabra, apertando-me as unhas contra o corpo, como querendo machucar a mim mesma; e gargalhando em zigzag pela ante-sala do pátio menor; onde somente nós estávamos. Num arroubo a minha voz muda para um tom mais grave e masculino e uma força arrebatadora toma conta de mim, soam tambores e aquela força me conduz num ritmo mais compassado e febril; danço de forma ritualística e me sinto bem, não obstante o grito alucinado ainda ecoa em meus ouvidos internos. No instante seguinte sinto uma força menor, mais obscura e perdida, não em mim , mas ao meu redor - somente a preencher meus ouvidos por uma voz desencontrada. Ainda sob o efeito dessa lisergia sigo descompassando em trio, ora um ora outro, tomando conta do meu corpo. Uma pequena lucidez surge em mim e converso com o Senhor - Pai de Santo, que me explica enquanto também aos demais que era um caso raro de posse tripla. No papel branco marcado com tinta vermelha três descrições diferenciadas do fato ocorrido. A primeira encarnação de 'Pomba Gira' (ou literalmente empomba engira) que me seguia assim de forma a alimentar sexualidade em cada ato meu, principalmente em relação aos homens; a segunda vinha de uma força oculta dum orixá muito poderoso que guardava meus caminhos e protegia a mim por onde quer que eu fosse - me explicou que era preciso o jogo de búzios para que ele fosse identificado, e na marcação do papel haviam letras simbólicas e números; e a terceira seria dum espírito obssessor qualquer que estava aproveitando da minha abertura dos canais sutis para estar presente neste paralelo. A afirmação seguinte me pareceu mais amedrontadora: "A sua alma se identifica com a personalidade mais 'exorcista'." Em mim novamente habitava o meu sopro divino. Fui começando a compreender o que aquele Senhor me falava, mas ao mesmo tempo, ao toque de qualquer pessoa naquele momento, o vento forte rompia o silêncio do lugar, assanhando meus cabelos e me trazendo um arrepio quase real, senão real por demais. E fui seguindo pelo corredor num mix de medo e fortaleza até chegar novamente ao pátio maior. As pessoas me olhavam de soslaio, me identificando como a mulher da 'posse rara' e percebiam que ao me tocar voltavam todas as sensações vividas horas antes. Chego num salão onde estavam pessoas comemorando algo com muita bebida e comida. Encontro com Lucas que pega no meu braço e ao sentir uma força estranha se afasta, eu o digo para permanecer afastado e ele atende, dizendo: "Não posso encostar em você, para não macular o prazer da sua viagem". Me encosto na parede, um pouco tímida, por estar sozinha, e um rapaz bonito de barba por fazer me olha e me diz: "Você é muito bonita!", agradeço com um 'obrigada' sensual que me faz não ser eu mesma. Suellen aparece ao meu lado, e este mesmo rapaz nos oferece um pedaço de bolo com uma grande 'berlota' de maconha fincada nele. Penso no receio de usar aquela 'droga' e voltar a sentir todas as coisas de antes; em meio ao desbaratino, meu olhar alcança uma menina de roupas brancas e amarelas, cabeça raspada, que permanecia de costas para mim, Flávia. Quando penso em ir falar com ela sobre tudo aquilo, acordo! Vivendo já o meu real, o medo e a força ainda restam em mim, daquele sonho completamente louco. Embora a sensação presente, agora, seja a da complexidade do papel do sonho na vida material e na vida sutil. Não é a primeira vez que tenho contato com certos tipos de ocultismos durante o sono. Me faz crer numa real ligação sobrenatural que nós, animais humanos, não temos o poder da compreensão. Me deixa fora do eixo, mas me transporta para um mundo mais abrangente de forças espirituais carregadas de sincretismos e simbolismos, que ora me fascinam ora me fazem recuar, diante da minha impossibilidade de entendimento. Tudo que vi, há pouco, rodopia, em câmera lente, em minha mente. A sensação do medo cessou, contudo carrego a curiosidade do 'por quê' não respondido. E mais uma vez o que é oculto me faz crer que o Portal entre a vida material e a vida sutil está no sabor das entrelinhas do que vivemos.
Acabo de acordar. Entre um arroubo de desentendimento da matéria vida e os dois celulares tocando suas sinas de despertar. O som de um deles adentra meus sonhos, Cazuza. O outro faz com que eu a acorde, já atrasada, para a batalha do dia que virá. Ela sai correndo contra o tempo; eu estou aqui, fazendo o tempo correr devagar para tudo permanecer intacto na parede da memória. Não me recordo, por mais esforço que faça, para saber como tudo começa, ou se em algum outro momento da noite tive sonho outro que não este. Sei lembrar que era uma festa num pátio muito grande, e mesmo que haja muitas pessoas , o tamanho deste lugar faz com que exista ninchos 'sem gentes'. Vamos percorrendo o lugar Nayra, Marquito e eu. Sempre em trio. Sempre lado-a-lado, passos iguais. Olho-no-olho. De repente um corredor largo, com muitas pessoas em fila e outras que se diferenciam daquelas por seu grau de mediunidade e sapiência. Sinto um vento gelado percorrer meu corpo, e esta sensação é tamanha que minha alma em vida sente como sendo muito real. O vento vai se demorando em meu corpo a ponto de assanhar meus cabelos e me fazer ser notada por algumas poucas pessoas mais 'entendidas' que me fazem entrar numa lista e esperar, também, na fila, que nos levará a alguma descoberta pessoal. Ao adentrar naquele espaço meu corpo é tomado por um frenesi quase macabro de risadas, lágrimas e atos desencontrados de fúria e força. Existem muitas vozes a me dizer em mente que agora estava a dividir aquele corpo, matéria. Minha alma não fraqueja embora ceda lugar a todos eles. O Senhor que me acompanha vai me orientando; entretanto sua voz vai soando tão longíqua. O que agora escuto e reproduzo é um dialeto estranho, e talvez o que seja mais estranho é o fato de eu ter completo domínio sobre ele. Vou rodando uma dança sensual e macabra, apertando-me as unhas contra o corpo, como querendo machucar a mim mesma; e gargalhando em zigzag pela ante-sala do pátio menor; onde somente nós estávamos. Num arroubo a minha voz muda para um tom mais grave e masculino e uma força arrebatadora toma conta de mim, soam tambores e aquela força me conduz num ritmo mais compassado e febril; danço de forma ritualística e me sinto bem, não obstante o grito alucinado ainda ecoa em meus ouvidos internos. No instante seguinte sinto uma força menor, mais obscura e perdida, não em mim , mas ao meu redor - somente a preencher meus ouvidos por uma voz desencontrada. Ainda sob o efeito dessa lisergia sigo descompassando em trio, ora um ora outro, tomando conta do meu corpo. Uma pequena lucidez surge em mim e converso com o Senhor - Pai de Santo, que me explica enquanto também aos demais que era um caso raro de posse tripla. No papel branco marcado com tinta vermelha três descrições diferenciadas do fato ocorrido. A primeira encarnação de 'Pomba Gira' (ou literalmente empomba engira) que me seguia assim de forma a alimentar sexualidade em cada ato meu, principalmente em relação aos homens; a segunda vinha de uma força oculta dum orixá muito poderoso que guardava meus caminhos e protegia a mim por onde quer que eu fosse - me explicou que era preciso o jogo de búzios para que ele fosse identificado, e na marcação do papel haviam letras simbólicas e números; e a terceira seria dum espírito obssessor qualquer que estava aproveitando da minha abertura dos canais sutis para estar presente neste paralelo. A afirmação seguinte me pareceu mais amedrontadora: "A sua alma se identifica com a personalidade mais 'exorcista'." Em mim novamente habitava o meu sopro divino. Fui começando a compreender o que aquele Senhor me falava, mas ao mesmo tempo, ao toque de qualquer pessoa naquele momento, o vento forte rompia o silêncio do lugar, assanhando meus cabelos e me trazendo um arrepio quase real, senão real por demais. E fui seguindo pelo corredor num mix de medo e fortaleza até chegar novamente ao pátio maior. As pessoas me olhavam de soslaio, me identificando como a mulher da 'posse rara' e percebiam que ao me tocar voltavam todas as sensações vividas horas antes. Chego num salão onde estavam pessoas comemorando algo com muita bebida e comida. Encontro com Lucas que pega no meu braço e ao sentir uma força estranha se afasta, eu o digo para permanecer afastado e ele atende, dizendo: "Não posso encostar em você, para não macular o prazer da sua viagem". Me encosto na parede, um pouco tímida, por estar sozinha, e um rapaz bonito de barba por fazer me olha e me diz: "Você é muito bonita!", agradeço com um 'obrigada' sensual que me faz não ser eu mesma. Suellen aparece ao meu lado, e este mesmo rapaz nos oferece um pedaço de bolo com uma grande 'berlota' de maconha fincada nele. Penso no receio de usar aquela 'droga' e voltar a sentir todas as coisas de antes; em meio ao desbaratino, meu olhar alcança uma menina de roupas brancas e amarelas, cabeça raspada, que permanecia de costas para mim, Flávia. Quando penso em ir falar com ela sobre tudo aquilo, acordo! Vivendo já o meu real, o medo e a força ainda restam em mim, daquele sonho completamente louco. Embora a sensação presente, agora, seja a da complexidade do papel do sonho na vida material e na vida sutil. Não é a primeira vez que tenho contato com certos tipos de ocultismos durante o sono. Me faz crer numa real ligação sobrenatural que nós, animais humanos, não temos o poder da compreensão. Me deixa fora do eixo, mas me transporta para um mundo mais abrangente de forças espirituais carregadas de sincretismos e simbolismos, que ora me fascinam ora me fazem recuar, diante da minha impossibilidade de entendimento. Tudo que vi, há pouco, rodopia, em câmera lente, em minha mente. A sensação do medo cessou, contudo carrego a curiosidade do 'por quê' não respondido. E mais uma vez o que é oculto me faz crer que o Portal entre a vida material e a vida sutil está no sabor das entrelinhas do que vivemos.
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Indira.
03.Julho.2010 - Manhã dum sábado nublado, misterioso. Depois de uma noite sóbria e fria, ao som de 'Pirigulino Babilake, no Viela Sebo Café.
Um comentário:
O sabor fica ainda mais forte quando você consegue, por si só, situra-se em algum ponto entre a "vida material" e a "vida sutil". Na verdade creio que passamos toda a nossa existência procurando por este ponto. Alguns gostam de chamá-lo de Porto-Seguro.
Eu me refiro a este lugar como sendo o "Marco-Zero". Quero que o meu seja um ponto neutro. Lúcido.
Besos, mi consecuencia bienvenida.
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