Descíamos uma ladeira. Andávamos rapidamente, como se um compromisso nos esperasse. Era manhã. Uma manhã fria e nublada. O Céu estava cinza; mas o cheiro daquele dia era íntimo à minha memória. Num instante cruzávamos a rua da Maçonaria 'Cavaleiros do Oriente', e as nossas vozes eufóricas foram interrompidas por dois homens bem vestidos, de terno-gravata. Um homem branco, e um homem negro interromperam nossas risadas com uma conversa estranha. Minha lembrança sabia sobre um acontecimento, qualquer coisa sobre o Céu, embora não estivéssemos muito preocupadas com o que estaria prestes a acontecer. A voz do homem negro ressoou como um trovão, em tom de desafio: _ Por que não estão olhando o Céu ?!. Levantando a minha vista ao alto, visualizei - por de trás de tantas nuvens bem carregadas e sombrias - duas luas crescentes de luz ofuscantemente delirante preenchiam aquele Céu tão alvo como algodão recém colhido. Num instante a luz sugou toda a nuvem escura e o Céu resplandeceu. Eu estava ali, de pé, segurando a mão dela; com a outra mão - a mão direita - podia tocar a força refletida das duas luas brilhantes. Minha mão, com alguma dificuldade, ficou estendida durante horas, enebriada pelo acontecimento místico daquela manhã tão fria, eu não emitia um som. Apenas trocava olhares com ela, e eram olhares confortantes e eternos. Muito tempo parecia ter passado, no entanto poucos segundos separariam todo aquele acontecimento cósmico. Continuamos a descer a rua. Numa esquina estavam Bárbara e Marquito, sentados em cadeiras de bar. Sentamos, eu e ela. Pedimos cerveja, cigarros. E com uma alegria diferente, uma maia interior me senti possuída pelo poder universal que rege as vidas e os mundos.
Indira. - Acordo feliz.
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