Lhe faltara algo, durante toda a noite fria. Ela revirou-se para um lado, o porta-retrato refletia o vazio de toda uma vida. Revirou-se para o outro lado, e as nuvens falavam em sua linguagem própria sobre sua hecatombe interior. Talvez tudo que estava preenchendo-lhe a mente seria, então, o grande vazio de dentro. Tentou permanecer com os olhos cerrados. Tentou não pensar. Tentou pensar para sentir o sonho chegar. Sorveu o cigarro com extravagância. As palavras do último telefonema recebido ecoavam e tilintavam vidros estilhaçados em sua cabeça. 'A água só mata a sede de fora.'; pensou enquanto distraia-se olhando imagens bonitas na televisão ligada por acidente. A noite toda lhe parecera uma grande piada do Mestre da Ilusão. Não conseguia reunir pensamentos, e todo o dia havia sido ensolarado. Morava aí a contradição da vida. E na lei das coisas reais o que é eterno sempre tem retorno.
Adormeceu do tanto que o sono brincou de não chegar. E acordou com um bom-dia vindo do único lugar que havia amor.
Indira.
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